A síndrome do tomate na ecologia do alimento

Por Luíz Carlos Iasbeck

O fenômeno inesperado da alta do preço do tomate no Brasil, no início do demasiadamente molhado inverno tropical, traz à tona uma série de velhas questões acerca da gestão da agricultura nos países hoje considerados emergentes e até bem pouco tempo conhecidos como terceiro mundo.  Junte-se  à indignação popular pela alta dos preços do tomate um outro fenômeno midiático de grande vulto e de inesperada dimensão: as ironias que tomaram as redes sociais tentando explicar e eufemizar o desastre com um bom-humor cáustico e certeiro. 

Há mais 30 anos, no Brasil de Mario Henrique Simonsen, a inflação foi atribuída ao preço do chuchu, um vilão bem menos charmoso do que o tomate contemporâneo, mas que causou furor na imprensa marginal ao assumir o ônus do descontrole econômico. Hoje  o tomate, a despeito das piadas inteligentes nas redes sociais,  nos leva de novo a pensar no peso dos alimentos no custo de vida e no custo da vida dos alimentos num Pais em que “se plantando, tudo dá”. 

Sabermos que o desperdício crônico começa  no processo de produção, desde a colheita, passando pela seleção, pelo armazenamento até chegando à distribuição. Seja porque não possuímos boa tecnologia agrícola, seja porque nosso imaginário não está suficientemente maduro para buscar a produtividade, perdemos cerca de 30% de alimentos só nesse processo inicial do ciclo produtivo. 

Como se não bastasse tamanho descaso, quando o alimento chega ao ponto de venda ele também passa por um processo de seleção que tem como agentes o fornecedor e o consumidor.  Aí o descarte se dá sobretudo – pasmem – por fatores cosméticos e estéticos. O alimento não precisa estar saudável; precisa estar bonito e ter um aspecto similar àqueles que aparecem nas propagandas de TV e nos anúncios impressos. Evidentemente esses exemplares, que se tornaram celebridades na mídia, vão servir de paradigmas para a dona de casa escolher  o alimento que vai levar para casa. Os mais distantes desse padrão ditatorial de beleza agrícola vão sobrar nas prateleiras e servirem de alimento para porcos e outros animais, quando não descartados sumariamente no container de lixo do mercado.

Os países emergentes ainda necessitam deixar emergir seu imaginário cultural, retirando-o das trevas da ignorância rumo ao esclarecimento cidadão e político. Só assim poderão caminhar para a a racionalização da produção, da distribuição e do consumo dos alimentos em geral... e do tomate,  em particular! 

A crise da oferta do tomate – um cultivo que como todos os demais não é regido por políticas de distribuição mas pelo livre exercício predatório do mercado (o liberalismo econômico) –  nos ensina que nem tudo  vai bem quando o discurso do desenvolvimento se materializa no aumento do poder aquisitivo. As externalidades, como as intempéries da natureza ,estão aí para nos lembrar da importância de desenvolvermos uma balanceada ecologia para o crescimento econômico. E esse padrão de desenvolvimento passa pela integração da consciência política cidadã com as práticas de mercado organizadas livremente, sob a indispensável orientação do Estado.  

Caso contrário, continuaremos a enfrentar situações de descontrole como a atual síndrome do tomate, que leva o alimento a ser ofertado por unidade num mercado livre e nervoso, movido ao sabor da oportunidade, à mercê do desperdício e da falta de planejamento. Um ambiente em que perdem todos: produtores, atravessadores e consumidores. 

Um problema que está ficando caro demais para cada um de nós e – por extensão – para a ecologia da alimentação. 

 

Iasbeck é Jornalista, Doutor em Comunicação Organizacional pela PUC/SP, Pós-Doutor em Comunicação e Cultura pela Universidade Católica de Lisboa, Professor e Pesquisador no Mestrado da Universidade Católica de Brasília.

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