"Quando deitamos comida fora, isso faz subir os preços"

Hélder Muteia, o representante da FAO em Portugal, diz que o desperdício faz aumentar os preços. Ao deitarem comida fora, os consumidores reabastecem-se mais depressa. Aumenta a procura, aumenta o preço.

Hélder Muteia, o representante da FAO em Portugal, ENRIC VIVES-RUBIO

Por Ana Rute Silva | Público Pt

O representante em Portugal da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO na sigla inglesa) já passou pelo escritório desta instituição na Nigéria e no Brasil. Em entrevista, Hélder Muteia elogia o trabalho das organizações não governamentais portuguesas no combate ao desperdício, um comportamento global cujo impacto económico é, muitas vezes, pouco visível para o consumidor. Referindo-se ao embargo russo, defende que a comida não pode ser usada como arma no comércio internacional.

Há cerca de um ano dizia que a crise poderia implicar um retrocesso na segurança alimentar em Portugal. Isso aconteceu?
Nós não temos dados concretos. Mas é um cenário que já vimos noutros lugares onde a crise aconteceu. Vimos isso acontecer na Grécia e na Itália. A declaração que fiz era para alertar.

Mas qual é a sua percepção?
Sabemos que a situação em Portugal tem vindo a melhorar. Há um trabalho que tem sido feito quer pela sociedade civil, quer pelo Governo ou entidades públicas como os municípios, para atender as camadas mais vulneráveis no acesso à alimentação. Trabalhos feitos por organizações como a Refood ou a Dar e Acordar, por exemplo.

Quando falamos de segurança alimentar, falamos do acesso a alimentos suficientes, seguros e nutritivos.
Sim, sobre a questão da disponibilidade e utilização dos alimentos. A primeira grande constatação que fazemos é que num país desenvolvido como Portugal a situação de fome não é muito visível. Há disponibilidade de alimentos, o mercado funciona. O que acontece é que quando há crise as pessoas economizam nos alimentos mais caros: carne, fruta, legumes. E é muito mais fácil fazer uma alimentação baseada em pão, massas, arroz e ovos. Neste cenário, podem surgir carências de micronutrientes. A minha chamada de atenção vai no sentido de que é possível ter uma alimentação equilibrada mesmo gastando pouco. Há sempre opções. Há fruta da época, que é mais barata, por exemplo.

É mais importante sensibilizar o consumidor?
As pessoas fazem a última opção. Mas é preciso alertar todos. Os governos porque podem, por exemplo, reduzir impostos sobre alguns alimentos e fazer com que sejam mais acessíveis. É preciso incentivar a produção de fruta de época e fazer ver os produtores de que há um nicho de mercado que nasceu com a crise.

Qual é, em concreto, o papel da FAO em Portugal?
O de estabelecer parcerias. A FAO não trata apenas de assuntos ligados à fome, lidamos com todos os elementos do sistema alimentar, desde a agricultura (que cada vez mais é globalizada), a indústria, o ambiente, o desperdício ou a água. Há abordagens e políticas que devem ser compatibilizadas a nível internacional e a intenção é criar uma plataforma de cooperação a nível global, de partilha. No campo do desperdício alimentar há iniciativas positivas em Portugal que queremos que sejam conhecidas no mundo e replicadas. Como os problemas que temos hoje são globais, é importante que as soluções também possam ser globalizadas.

Que projectos portugueses têm esse potencial?
Os que já mencionei, como a Refood e a Zero Desperdício. Mas também a Fruta Feia ou a iniciativa da câmara de Lisboa que criou um comissariado municipal, experiência que não conheço em mais nenhum país, embora haja bons exemplos no Reino Unido. Também há exemplos na agricultura familiar e nesta fase em que a agricultura portuguesa está a ressurgir há lições que podem ser replicadas. Há casos na produção de azeite, nos frutos vermelhos, na aquacultura ou na pecuária. O facto de estarmos enquadrados na CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) faz com que a realidade portuguesa possa ser partilhada em português rapidamente. Há elementos culturais similares e é mais fácil replicar.

A redução do desperdício alimentar tem estado na ordem do dia. A criação uma plataforma nacional, como a que foi anunciada recentemente, será realmente eficaz?
Acredito que vai ter um grande impacto. O que mais resultado traz no combate ao desperdício é o exercício de despertar as consciências. E quando interiorizamos no Governo e na sociedade civil essa necessidade de mudar de paradigma, há bons resultados. Com uma plataforma onde isso é assumido haverá bons resultados. Todos os sectores vão poder dizer o que vai fazer a diferença no seu caso concreto.

Para uma empresa ou um restaurante reduzir o desperdício significa gerir melhor os recursos e, na prática, ganhar mais dinheiro. Por haver um factor económico este é um assunto que desperta mais interesse?

Reduzir o desperdício vai resultar em ganhos para a empresa, mas noutros casos vai resultar em perdas. Porque nem todo o exercício de redução é economicamente viável. Mas no cômputo geral é benéfico. Todo o desperdício é prejudicial ao ambiente. Para produzir alimentos há o sacrifício que é feito ao clima (utilização de agro-químicos, água, capitais e recursos humanos). Os custos ambientais são muito difíceis de incorporar na economia. No caso das famílias, provavelmente, é muito mais cómodo para quem tem recursos colocar tudo num saco e deitar fora em vez de guardar, reciclar e classificar os alimentos. Mas quando deitamos comida fora estamos a retirar os alimentos do mercado e isso faz com que haja menos disponibilidade. Quais são as implicações? O preço sobe e os mais pobres sofrem. Este é o primeiro custo. É uma agressão contra os mais pobres porque encarece os alimentos. Se não deitamos fora e consumimos as sobras não vamos comprar mais no dia seguinte. Usamos o que temos disponível e, por isso, os alimentos mantêm-se no mercado e o preço não sobe. Há ainda a questão moral. Porque deitamos fora fonte de vida? Os alimentos são uma pré-condição para a nossa existência. Deitar fora alimentos tem de ser banido.

Esta notícia foi originalmente publicada no site Público PT (Portugal)

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